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Da imagem e do tempo

Perspectiva, na fotografia, costuma ser entendida como a relação entre distância, posição e profundidade. É o que faz uma imagem organizar o espaço, aproximar ou afastar corpos, criar tensão entre o que está em primeiro plano e o que fica ao fundo, sugerir escala, direção, presença. Ela depende de onde se está. Mudar de lugar muda a imagem.

Ao acompanhar a Cia de Teatro da UFPR em momentos diferentes, a noção de perspectiva passou a abarcar também o tempo. O primeiro encontro do elenco, o ensaio geral e o último dia de apresentação colocaram as fotografias em relação direta com o que se transforma ao longo de um processo. Cada retorno mudava a leitura do que estava diante de mim.

Da imagem e do tempo

Perspectiva, na fotografia, costuma ser entendida como a relação entre distância, posição e profundidade. É o que faz uma imagem organizar o espaço, aproximar ou afastar corpos, criar tensão entre o que está em primeiro plano e o que fica ao fundo, sugerir escala, direção, presença. Ela depende de onde se está. Mudar de lugar muda a imagem.

Ao acompanhar a Cia de Teatro da UFPR em momentos diferentes, a noção de perspectiva passou a abarcar também o tempo. O primeiro encontro do elenco, o ensaio geral e o último dia de apresentação colocaram as fotografias em relação direta com o que se transforma ao longo de um processo. Cada retorno mudava a leitura do que estava diante de mim.

No começo, a perspectiva era a de algo em formação. Havia um grupo reunido, uma energia ainda dispersa, uma criação que existia mais como possibilidade do que como forma definida. Isso me colocava diante de um tipo de imagem muito aberto, em que o mais importante eram as relações começando a aparecer nos gestos ainda sem acabamento, na ocupação inicial do espaço.   
Fiquei mais interessado no intervalo, no que ainda não tinha se fechado, no que mal podia ser nomeado e mesmo assim já existia. Comecei a perceber com mais clareza que uma criação coletiva não se impõe de uma vez. Ela vai ganhando densidade aos poucos, vai encontrando sua temperatura, vai encontrando sua própria respiração.

A trilogia formada por Asa Serpente,  Arrebentação e Artéria Rara trabalha corpo, pertencimento e relações de convivência a partir de processos coletivos. Em Artéria Rara, esse campo se desloca para corpo e trabalho, para exaustão, pausa, pulsação, esforço comum. Ter acompanhado esse percurso em diferentes momentos fez com que eu olhasse para a peça como um acúmulo de camadas por baixo de um acontecimento cênico. 

No último dia, isso se tornava ainda mais visível. A obra já estava diante do público, carregada de percurso, de repetição, de elaboração compartilhada. A imagem ganhava outra espessura. O que acontecia no palco vinha acompanhado dos dias anteriores, da passagem do tempo, daquilo que foi sendo construído até chegar ali. O tempo entra na fotografia de outro jeito.

A perspectiva visual continua sendo importante: de onde eu vejo, o que escolho aproximar, como organizo a presença no quadro. Mas, nesse caso, a perspectiva do tempo se tornou igualmente decisiva. As imagens foram sendo atravessadas por intervalos, retornos e mudanças de estado. Isso altera o modo de olhar. A atenção fica naquilo que se transforma devagar, naquilo que só pode ser percebido quando existe permanência.

Esse é um dos tantos temas deste conjunto, um exercício de perspectiva em dois planos. Um pertence à fotografia em sentido estrito: espaço, distância, profundidade, relação entre corpos e ambiente. O outro pertence ao tempo: ver uma criação coletiva em instantes diferentes e entender que cada imagem carrega um momento de um processo humano. Juntas, essas duas perspectivas mudam o que a fotografia pode guardar.

Mais tarde, no ensaio geral, a perspectiva já era outra. A peça tem corpo, direção, ritmo. Mesmo sem as luzes cênicas, já era possível perceber a densidade do trabalho e a maneira como aquela criação coletiva tinha encontrado sua linguagem. O trabalho já tem direção, corpo, tensão, vocabulário, mas ainda expõe suas articulações, seus apoios, sua musculatura. Sem a luz final, a cena aparece mais “nua”.

Como fotógrafo, esse momento me interessa muito porque ele revela estrutura. A peça ainda não completamente protegida por sua camada de acabamento, ainda visível como trabalho, composição, tentativa, ajuste, insistência. A cena ainda não está mediada por todos os seus elementos finais, e isso deixa aparecer linhas de força que às vezes passam mais rápido na apresentação.

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       No começo, a perspectiva era a de algo em formação. Havia um grupo reunido, uma energia ainda dispersa, uma criação que existia mais como possibilidade do que como forma definida. Isso me colocava diante de um tipo de imagem muito aberto, em que o mais importante eram as relações começando a aparecer nos gestos ainda sem acabamento, na ocupação inicial do espaço.

     Fiquei mais interessado no intervalo, no que ainda não tinha se fechado, no que mal podia ser nomeado e mesmo assim já existia. Comecei a perceber com mais clareza que uma criação coletiva não se impõe de uma vez. Ela vai ganhando densidade aos poucos, vai encontrando sua temperatura, vai encontrando sua própria respiração.

     Mais tarde, no ensaio geral, a perspectiva já era outra. A peça tem corpo, direção, ritmo. Mesmo sem as luzes cênicas, já era possível perceber a densidade do trabalho e a maneira como aquela criação coletiva tinha encontrado sua linguagem. O trabalho já tem direção, corpo, tensão, vocabulário, mas ainda expõe suas articulações, seus apoios, sua musculatura. Sem a luz final, a cena aparece mais “nua”. 

     Como fotógrafo, esse momento me interessa muito porque ele revela estrutura. A peça ainda não completamente protegida por sua camada de acabamento, ainda visível como trabalho, composição, tentativa, ajuste, insistência. A cena ainda não está mediada por todos os seus elementos finais, e isso deixa aparecer linhas de força que às vezes passam mais rápido na apresentação.

Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo

Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo

Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo

Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo

A trilogia formada por Asa Serpente, Arrebentação e Artéria Rara trabalha corpo, pertencimento e relações de convivência a partir de processos coletivos. Em Artéria Rara, esse campo se desloca para corpo e trabalho, para exaustão, pausa, pulsação, esforço comum. Ter acompanhado esse percurso em diferentes momentos fez com que eu olhasse para a peça como um acúmulo de camadas por baixo de um acontecimento cênico. 

No último dia, isso se tornava ainda mais visível. A obra já estava diante do público, carregada de percurso, de repetição, de elaboração compartilhada. A imagem ganhava outra espessura. O que acontecia no palco vinha acompanhado dos dias anteriores, da passagem do tempo, daquilo que foi sendo construído até chegar ali. O tempo entra na fotografia de outro jeito.

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DSC_8365.JPG

A perspectiva visual continua sendo importante: de onde eu vejo, o que escolho aproximar, como organizo a presença no quadro. Mas, nesse caso, a perspectiva do tempo se tornou igualmente decisiva. As imagens foram sendo atravessadas por intervalos, retornos e mudanças de estado. Isso altera o modo de olhar. A atenção fica naquilo que se transforma devagar, naquilo que só pode ser percebido quando existe permanência.

Esse é um dos tantos temas deste conjunto, um exercício de perspectiva em dois planos. Um pertence à fotografia em sentido estrito: espaço, distância, profundidade, relação entre corpos e ambiente. O outro pertence ao tempo: ver uma criação coletiva em instantes diferentes e entender que cada imagem carrega um momento de um processo humano. Juntas, essas duas perspectivas mudam o que a fotografia pode guardar.

Meu sincero agradecimento ao Rafael Lorran e a todo o elenco da Cia. de Teatro da UFPR.

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